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Imagens do Saara expõem a diversidade de luzes, formas e contrastes do deserto A suavidade das dunas, as cores pastéis do ambiente e a dimensão sobre-humana das montanhas de areia impactam o olhar do viajante

Imagens do Saara expõem a diversidade de luzes, formas e contrastes do deserto A suavidade das dunas, as cores pastéis do ambiente e a dimensão sobre-humana das montanhas de areia impactam o olhar do viajante

20

julho

Meu contato inicial com o deserto ocorreu na Argélia em 1971, quando era bem jovem. Foi lá que a suavidade das curvas das dunas,as cores pastéis do ambiente e a dimensão sobre-humana das montanhas de areia me impactaram pela primeira vez. Era uma experiência totalmente nova. As cinco vilas do M’Zab argelino – uma região situada a 600 quilômetros ao sul da capital Argel – também chamaram minha atenção por estarem rodeadas pelas grandes areias. Nunca mais regressei a Ghardaia, a El Atteuf e as outras três vilas visitadas do M’Zab mas aquele encontro com o Saara marcou minha alma de viajante. Foi o começo de uma longa relação de carinho e respeito com o deserto. Grande parte de meus leitores já deve saber que a palavra sahara em árabe significa deserto. Seria, assim, uma redundância escrever “deserto do Saara”. Mas essa parte quase monocromática de nosso planeta azul bem merece o peso duplo do pleonasmo. Estendendo-se do mar Vermelho no leste ao oceano Atlântico no oeste em uma faixa de 4.800 km – mais do que do Oiapoque ao Chuí brasileiro – o Saara é o maior dos “desertos quentes” do planeta, com uma área de 9,2 milhões de quilômetros quadrados, superior ao território brasileiro. Mencionei “deserto quente”, pois, se comparado com os “desertos frios” da Antártica e do Ártico, o Saara não é o maior deserto e fica em terceiro lugar. Abrangendo uma dúzia de países em uma faixa horizontal que envolve o Trópico de Câncer, o Saara assume diferentes personalidades, formas e cores, sempre mantendo a constante de abrigar alguns octilhões – sim, 1027 – de grãos de areia. A mistura de partículas de quartzo, calcita e dolomita se esparrama de maneira implacável – mesmo se poética – pelo norte da África, adaptando-se à força dos ventos, à gravidade do tempo e até mesmo às raras gotas de água que caem dos céus. Fotografei o Saara em diferentes países, mas minha passagem na Líbia – quando ainda era factível visitar o país – foi a que me trouxe as imagens mais impactantes. Um dos pedaços mais deslumbrantes é o Akakus, situado a 1.000 quilômetros ao sul da capital Trípoli. O Akakus possui dunas altas – algumas com mais de 100 metros de altura – e suas areias variam do branco ao quase-vermelho, passando pelo ocre e amarelo ouro. É o jogo entre o dinamismo das dunas e as formações rochosas que fazem do Akakus um lugar excepcional. Fico fascinado com o contraste entre o escuro das pedras e a luminosidade das areias. Mas, em pleno dia, o local é quase um inferno de tão quente. Os nômades tuaregues, guardiões do deserto, acertaram no nome: Akakus significa em idioma local um lugar (aka) tórrido (kus) No final da tarde, o deserto ganha novos contornos. Quando o sol começa a baixar, as cores se tornam mais carinhosas e a temperatura não é tão ofegante. Aproveito a luz amena para caminhar entre rochas e dunas. O silêncio é o que mais me assusta. Apenas ouço o som – quase imperceptível – dos grãos de areia sendo transportados pelo vento. Em poucos minutos, encoberto por ondas de areia, já não vejo o acampamento. Sigo uma estratégia óbvia para não me perder: procuro montanhas com formas peculiares que passam a ser indicadores de minha posição. Gravo as formas na mente e também na minha câmera. O instinto obriga-me a subir para ter uma visão mais ampla. Lá de cima, reconheço melhor o terreno. No topo da montanha de areia, a marca divisória das duas vertentes transforma-se em uma trilha natural. Posso agora caminhar em duas direções, sempre seguindo a crista da duna: ir em frente ou voltar para o acampamento. Não há espaço para confusão. Ficar perdido no deserto não é uma experiência que pretendo buscar. O cume da duna é uma linha que está sempre em movimento. Esse fio delicado cria curvas que cativam minha imaginação e meus cliques fotográficos. A busca por imagens inéditas nos ângulos, nas sombras e nas formas geradas pelo vento torna-se quase uma meditação em movimento. Entendo porque o deserto é tão apaixonante.

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